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Lemborexante atua sobre o sistema de vigília e foi registrado pela Anvisa para adultos com dificuldade para iniciar ou manter o sono

A insônia deverá ganhar uma nova opção de tratamento no Brasil. A farmacêutica brasileira Eurofarma e a japonesa Eisai firmaram uma parceria para comercializar o Dayvigo, medicamento à base de lemborexante. A previsão é que o produto esteja disponível no mercado brasileiro ainda neste semestre, com preço médio estimado em R$ 200.

O lemborexante pertence a uma classe de medicamentos que atua de maneira diferente dos benzodiazepínicos e dos chamados medicamentos Z, como o zolpidem. Em vez de provocar a redução generalizada da atividade do sistema nervoso central, o princípio ativo bloqueia a ação da orexina, neurotransmissor envolvido na manutenção do estado de vigília.

Na prática, a proposta é reduzir o sinal cerebral que contribui para manter a pessoa acordada, facilitando o início e a manutenção do sono. O mecanismo é considerado uma das principais diferenças em relação aos medicamentos tradicionalmente utilizados para tratar a insônia.

O Dayvigo foi desenvolvido pela Eisai, que continuará responsável pela titularidade do registro sanitário e pelas diretrizes globais da marca. A Eurofarma ficará encarregada da comercialização, promoção e distribuição do medicamento no território brasileiro.

O medicamento recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso em adultos. A dose inicial recomendada é de 5 mg, uma vez por noite, próxima ao horário de dormir. O paciente deve ter pelo menos sete horas disponíveis para dormir antes do horário planejado para despertar. Conforme a resposta clínica e a tolerabilidade, a dose pode ser aumentada para 10 mg.

Menor risco de dependência ainda é avaliado

Uma das expectativas em relação ao lemborexante está relacionada ao potencial de apresentar menor risco de dependência em comparação com algumas opções atualmente utilizadas no tratamento da insônia.

Os benzodiazepínicos são conhecidos há décadas e continuam sendo utilizados em diferentes situações clínicas. Com o uso prolongado, entretanto, podem ocorrer tolerância, dependência e alterações cognitivas. O consumo inadequado também pode aumentar o risco de eventos graves, principalmente quando associado a outras substâncias depressoras do sistema nervoso central.

O zolpidem surgiu posteriormente como uma alternativa aos benzodiazepínicos e passou a ser amplamente utilizado para tratar dificuldades relacionadas ao sono. Apesar de apresentar características farmacológicas diferentes, seu uso também exige acompanhamento profissional e atenção ao risco de dependência, tolerância e comportamentos anormais durante o sono.

Estudos clínicos realizados com o lemborexante apontam um perfil considerado promissor nesse aspecto. No entanto, especialistas ressaltam que ainda é necessário acompanhar o medicamento por mais tempo para determinar com maior segurança seu potencial de abuso e dependência na prática clínica.

Uma revisão publicada na revista científica The Lancet, que comparou 36 tratamentos para insônia, colocou o lemborexante entre as opções com melhor combinação de eficácia, aceitabilidade e tolerabilidade. A análise foi conduzida por pesquisadores ligados à Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Tratamento não começa necessariamente com medicamento

Apesar do avanço nas opções farmacológicas, especialistas destacam que o tratamento da insônia não deve se limitar ao uso de medicamentos. A primeira avaliação deve investigar as causas do problema e os hábitos que podem estar prejudicando o sono.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I, é considerada uma das principais abordagens para a insônia crônica. O tratamento trabalha pensamentos, comportamentos e fatores fisiológicos relacionados à dificuldade para dormir.

Mudanças na rotina também podem ajudar. Entre as medidas recomendadas estão manter horários regulares para dormir e acordar, praticar atividade física, reduzir a exposição a telas no período noturno, controlar o consumo de cafeína e evitar álcool próximo ao horário de dormir.

Mesmo assim, o uso de medicamentos continua frequente entre os brasileiros. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde indicam que uma parcela significativa da população utiliza medicamentos para dormir, enquanto os números de comercialização do zolpidem mostram o crescimento da procura por esse tipo de tratamento ao longo da última década.

Para os especialistas, quando a terapia medicamentosa é necessária, a orientação deve ser individualizada. A recomendação é utilizar a menor dose eficaz pelo menor período necessário, sempre com acompanhamento profissional.

A chegada do lemborexante amplia as alternativas para o tratamento da insônia, mas não elimina a necessidade de diagnóstico adequado e uso racional. A escolha do medicamento deve considerar as características de cada paciente, possíveis interações e os riscos associados ao tratamento.

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História de médico que caiu do 7º andar após usar o medicamento expõe os perigos do uso inadequado e reforça o papel do farmacêutico na prevenção de intoxicações e eventos adversos

Na manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, de 34 anos, voltava para casa em São Paulo após um plantão exaustivo. O barulho de uma obra na rua impedia o sono. Precisando descansar para trabalhar na noite seguinte, ele tomou um comprimido de zolpidem. Depois outro. E mais outro. Quando acordou, estava na UTI do Hospital das Clínicas. Não lembrava de nada. Só mais tarde soube que havia caído da sacada do sétimo andar. A perna direita foi amputada. A visão, perdida. O rosto, quebrado em vários pontos. A Polícia Civil descartou suicídio e apontou a causa: parassonia induzida pelo medicamento, provavelmente um episódio de sonambulismo que o levou a escalar uma sacada baixa sem perceber.

A história de Piva não é um acidente isolado. Ela ilustra o que especialistas chamam de problema de saúde pública: o uso inadvertido do zolpidem, hipnótico mais consumido no país. Lançado no Brasil nos anos 1990 e popularizado após 2007 com a chegada dos genéricos, o fármaco virou rotina para quem tem dificuldade para dormir. Um estudo do Instituto de Psiquiatria da USP mostrou que, entre brasileiros com insônia, 60% tratam o problema com medicamentos, e 44% recorrem a hipnóticos como o zolpidem. Em 2020, no auge da pandemia, foram vendidas 23,3 milhões de caixas no país, número que fez profissionais de saúde falarem em epidemia.

O medicamento funciona bem quando indicado corretamente, em doses baixas e por pouco tempo. A recomendação é de no máximo quatro semanas, com dose diária de até 10 mg. Mas a tolerância aumenta rápido. Pacientes que começam com um comprimido passam a tomar cinco, seis, oito. Aí surgem a amnésia lacunar, os delírios, a dependência e o sonambulismo. Foi o que aconteceu com Piva, que tomou quatro comprimidos de uma só vez e, segundo ele mesmo admitiu, fazia automedicação com uma substância que também prescrevia.

Nesse cenário, o farmacêutico vira o último filtro antes que o risco chegue às mãos do paciente. Desde agosto de 2024, a Anvisa reclassificou o zolpidem como tarja preta, exigindo receita azul e prescrição presencial. As vendas oficiais caíram para 13,5 milhões de caixas no ano passado. Mas o mercado ilegal continua fervilhando. Receitas falsificadas, farmácias irregulares e revenda pela internet mantêm o fármaco acessível a quem já desenvolveu dependência. É aí que o farmacêutico entra como vigilante: ao conferir a autenticidade da receita, ao questionar compras repetidas, ao explicar que o medicamento não é um simples indutor de sono, mas um depressor do sistema nervoso central que pode matar quando usado sem controle.

A nova diretriz da Academia Brasileira de Neurologia já deixa claro que a terapia cognitivo-comportamental é o tratamento de primeira linha para insônia. O zolpidem tem lugar, mas temporário. Quem orienta o paciente sobre isso, muitas vezes, é o profissional da farmácia, na conversa de dois minutos que acontece antes da saída da porta. Piva, que passou por cerca de 20 cirurgias e hoje precisa da família para as atividades básicas, nunca mais tomou o medicamento. E agora alerta os amigos: para dormir, às vezes o risco é maior que a insônia.

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Nova regulamentação organiza atribuições do profissional na prevenção, rastreamento e acompanhamento de pacientes e fortalece a integração do cuidado em saúde

 

 Por Comunicação do CFF 

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) regulamentou as atribuições do farmacêutico no cuidado às pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), fortalecendo e organizando a participação desses profissionais na prevenção, no acompanhamento dos pacientes e na qualificação da assistência em saúde.

As DCNTs são condições de longa duração, com múltiplas causas e fatores de risco e, em geral, de progressão lenta. Por produzirem impactos persistentes na saúde, demandam ações contínuas de promoção, prevenção, rastreamento, tratamento, reabilitação e acompanhamento.

A resolução organiza as atribuições dos farmacêuticos em três grandes campos de atuação: atendimento e cuidado às pessoas, gestão e ensino e pesquisa. No atendimento, estão previstas atividades como prevenção e identificação de fatores de risco, rastreamento em saúde, avaliação e acompanhamento da farmacoterapia, promoção da adesão ao tratamento, educação em saúde, vacinação, navegação do cuidado e encaminhamento a outros profissionais e serviços quando necessário.

Na gestão, a norma contempla a organização dos serviços, a qualificação do acesso aos medicamentos e outras tecnologias em saúde, a participação na assistência farmacêutica, na avaliação e incorporação de tecnologias e na regulação do cuidado. 

Já no ensino e na pesquisa, reconhece a atuação do farmacêutico na formação profissional, educação permanente, desenvolvimento de pesquisas e produção de evidências sobre os resultados do cuidado farmacêutico.

A proposição da matéria foi realizada pelos Conselheiros Federais Fátima Aragão (SE), Roberto Canquerini (RS) e Leonel Almeida (suplente pelo RS) e a resolução aprovada foi resultado de uma construção conjunta dos membros dos Grupos de Trabalho de Farmácia Comunitária, Diabetes, Assessoria Técnica Científica e COLEG, além da participação de farmacêuticos do DAF/MS. O trabalho integrado buscou reunir diferentes experiências e áreas de atuação para estabelecer uma regulamentação abrangente e alinhada às necessidades das pessoas que convivem com doenças crônicas.

“Esta resolução reconhece, organiza e dá visibilidade a uma atuação que já é fundamental para o sistema de saúde. O farmacêutico está próximo da população e pode contribuir em diferentes momentos da jornada da pessoa com uma doença crônica, desde a prevenção e o rastreamento até o acompanhamento do tratamento, a gestão do cuidado e a produção de conhecimento. É uma construção coletiva que fortalece a profissão e, principalmente, amplia a capacidade de cuidado à população”, destaca o presidente do CFF, Walter da Silva Jorge João.

A nova regulamentação reforça, ainda, a atuação integrada e colaborativa do farmacêutico com os demais profissionais de saúde, contribuindo para a continuidade do cuidado, o uso seguro e efetivo dos medicamentos e a melhoria dos desfechos em saúde das pessoas com DCNTs. A norma será publicada após revisão final.